sábado, 24 de junho de 2017

Sobre passar cafés e a vida...

Certa feita, um vendedor abordou um senhor que aparentava seus lúcidos oitenta e poucos anos:
- Boa tarde senhor! Gosta de café?!
- Claro! Quem não gosta, né meu filho!?
- Ah! Todos nós, com certeza!
- Minha senhora sempre faz um ótimo café para mim.
- Que coisa boa! E como ela prepara o seu café?
- Passa no coador de pano... fiz até um apoio de arame para segurar o coador para ela...
- Bem, então! Deixa eu te apresentar uma coisa que vai revolucionar a cozinha de vocês. A cafeteira digital Smart Morning Plus Wi-fi! Com essa bela máquina a sua senhora não vai precisar se preocupar com coador de pano, com suporte, com nada! Esquece! Essa cafeteira faz tudo! Ela até mói os grãos se você quiser. E você programa a hora em que deseja o seu café pronto e ela faz! E você pode até deixar ela preparada, põe o café aqui em cima e a água aqui nesse compartimento, e você aciona ela pelo aplicativo do smartphone, pode fazer isso da rua, e quando chegar em casa o café estará pronto e quentinho esperando vocês!
- Humm... obrigado meu jovem, mas prefiro o café da minha senhora. Ela mesma já recusou cafeteiras que os filhos quiseram dar. E a gente mesmo mói os grãos num bom e velho moedor de café de ferro... tem até um...
- Ah... desculpe senhor, mas o senhor já experimentou o cafezinho da nossa cafeteira?! Especialistas deram notas excelentes para o café preparado nela. É da melhor qualidade! E eles dizem que o café do coador de pano não tem tanta qualidade... parece que deixa aquele gostinho dos cafés antigos, passados anteriormente...
- Olha rapaz! Esses especialistas podem até entender do café deles e dessa máquina aí... eu entendo do meu! Isso de gosto de café antigo é dengo deles. Acho que nem eles e nem você entendem de café de verdade. Fala do café passado no pano e quer me convencer a tomar um café com gosto de eletrônico, digital, de internet, de sei lá o que?! Pois saiba que o melhor do café coado no pano é justamente o sabor, o cheiro e a lembrança dos cafés passados...! E passar bem!
Enquanto o senhor ia embora com seus passos lentos mas firmes, o vendedor enxergou nele a figura de seu próprio avô e pensou, quase em voz alta: “saudades dos meus avós”! E continuou: ”acordar na casa deles, com aquele cheirinho de café. Eu acordava cedo, com a vontade de brincar com os primos... e a vó passava o café no coador de pano... a luz do Sol da manhã, logo cedo, atravessava os vidros da janela da cozinha e iluminava de amarelo todo o ambiente... fazia brilhar a água que caia, o café que saia do coador e o bule tão bem areado... a fumaça subia e por um tempo parecia nublar todo o espaço... tinha uma aura mágica, quase encantada... e o cheirinho do café... hummmm... ...mas preciso vender meu peixe agora."
- Boa tarde senhor! Gosta de café?!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Na própria ciência aprendi que o ser não é uma mera constituição de células, ossos, sangue e DNA . Na dialética natureza as somas não são lineares, 2 e 2 não são quatro, nem cinco, são probabilidades infinitas guiadas pelos caminhos tortuosos do Caos. Um ser não é só uma colônia de células, uma sociedade não é só um amontoado de seres, o cérebro não é só um músculo... são probabilidades infinitas. Em cada um e em cada coisa reside a infinitude, basta abrir os olhos e a mente para enxergar...

domingo, 26 de outubro de 2014

Me diga

Me diga,
se a falta que eu sinto de seus lábios,
seus abraços e seu calor a me envolver
é amor.
De dia,
um sorriso me acomete e sua imagem
se repete, me fazendo amanhecer
com louvor.
Antiga,
sua foto se revela, qual paisagem
na janela ao entardecer,
um torpor.
Vazia,
a minha noite se anuncia,
quando no final do dia posso perceber
minha dor.
Eu sinto
em meu leito essa saudade, com intensa
intensidade, que me faz estremecer
de pavor.
Confirmo
c'o violão iluminado num reflexo
molhado que pareceu até chover,
que o que sinto
por você
é amor.

Ruínas em construção (início do Caos)

Eram épocas de vivas e glórias,
em que permeava no ar
o odor caramelo das maçãs do amor.
Toda vida preenchia o material e ali se encerrava.
Toda certeza tinha seu altar
e seu quarto de veneração.
Os heróis estavam imunes e altivos.
Hoje, só o que me resta de concreto
são as ruínas de um antigo palácio de festas.
Onde a Lua, quando não invade totalmente,
salpica o chão de estrelas;
todas as paredes que ainda se aguentam
estão cheias de frestas...
Isso é só a ação do tempo
quebrando as linhas retas,
as revoluções acumulando
suas ações na história
e a natureza mostrando sua resistência
frente ao que é simples artifício...
E as minhas ruínas seguem
em permanente construção...

Experimente música

São novos acordes, novos tons;
notas que se sincronizam
em dissonantes desacordos,
mas acordam em bem soar o som.
Abrir os ouvidos é bom,
renova a alma e a mente;
chacoalha a quiescência;
provoca a expansão da consciência;
e leva, por vezes, à serendipidade.
Não importa a tua idade,
experimente...

Um Universo na fechadura

O menino, por trás da porta,
espia o ínfimo buraco da fechadura
e enxerga todo um Universo novo
que se desnuda diante de seus olhos;
com o desabotoar de uma blusa,
as barreiras da pequena mente desabam,
como desabam as vestimentas ao chão,
e o menino sente, como o despertar
do gérmen na semente,
um novo mundo de infinitas possibilidades.
Pelo ínfimo buraco da fechadura, por não conter a chave,
abre-se a porta de uma nova percepção,
que só o antigo menino sabe...
Construir um novo tempo em outro lugar
Faremos tudo muito lindo, rindo,
e os anjos vão nos invejar